segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Acaso

"Nossa que besta esse cara, não se toca que está fazendo um papel de ridículo!" Joana pensava num momento de observação. Ela estava em um bar com os amigos e fumava seu cigarro em uma área reservada quando se deparou com um homem bêbado entre amigos. Não se conformava com tamanha babaquice, desprezo pela vida e pouco senso do ridículo, tudo isso em uma pessoa só.
- Acabei de tirar carta e meu pai me deu de aniversário um mini Cooper. Fiquei puto, eu queria mesmo era um conversível que eu falei pra ele. Mas ele nunca me ouve, vê se pode! - Dizia o rapaz embriagado ao grupo de jovens na mesma situação.
-Ei cara, você não se toca que está fazendo o maior papelão aqui? Se liga, fuma seu cigarro e vai beber até entrar em coma otário! - Disse Joana furiosa interceptando a conversa do grupo.
Todos do grupo pararam, olharam entre si com certo alívio já que não suportavam mais aquele sujeito, temerosos também pelo que poderia acontecer depois.
- Ei, não está lembrado de mim gatinha? - respondeu o rapaz - É o Ricardo da Pucci, a gente ficou lá, peguei seu telefone, mas você nem me atendia.
Joana parou, reparando agora na aparência dele, não havia feito aquilo antes. "Putz, que zica!" pensou ela e saiu andando em direção à pista do centro.
Ela não esperava aquilo, não aquela noite. Mas ela tinha de reconhecer que estaria sujeita a esses encontros a partir do momento em que utilizasse sua boca para um mero desejo. Ela se sentiu ridícula, comum. Lembrou-se do encantamento que sentia quando beijava pela primeira vez alguém especial e só então reparou que há muito tempo não procurava isso nos beijos do acaso. Ficara sem graça para Joana beijar por beijar desde então.
" Alguém precisa parar de mentir e avisar para essas meninas que a vida é uma chacina cotidiana. Que o envelhecimento chega sem que você espere, que o mundo fica repetitivo com o tempo, que as pessoas ficam previsíveis e que sexo fácil é sempre sexo sem amor. Avisem a elas que o amor é raro, difícil, caro, duro de encontrar, morre fácil, porque é sempre mal-adaptado num ambiente mais afeito a baratas do que a seres humanos.
Enfim, que uma das lutas contínuas da civilização é contra a indiferença porque homens e mulheres não são especiais e existem às dúzias por aí, a gargalhadas, como bonecos de cera sem graça." Luiz Felipe Pondé, Jornal Folha de São Paulo, 3 de Maio de 2010.
Um tanto forte, eu sei, mas possui certa verdade. Um beijo, fiquem bem.

3 comentários:

  1. bons escritores nao sabem apenas escrever, mas também selecionar bons textos....

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  2. ''(...) e que sexo fácil é sempre sexo sem amor. Avisem a elas que o amor é raro, difícil, caro, duro de encontrar, morre fácil, porque é sempre mal-adaptado(...)''
    Ju, parabéns... eu adoreiiii o blog!!! vou passar aqui sempre!! beijoooo

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  3. O amor sentimento que não pertence mais oas humanos...

    Passando pra prestigiar seu blog.
    bjão JUH

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