segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Faça primeiro

- Ei, espera. Preciso te contar uma coisa. Disse João antes de desligar o telefone.

- O que filho, pode falar? Respondeu sua mãe, curiosa.

- É... mãe... dá um abraço no pai por mim?

- Claro! Mas por que você não dá hoje à noite quando ele chegar?

- Não sei. Não... não sei por que, mas tive vontade de dizer isso agora no telefone.

- Fica tranquilo. Respondeu Fábia, mãe de João, um tanto apreensiva.
– Mais alguma coisa?

- Huum, sim. Quero que você se olhe no espelho e veja o quanto é linda. E o quanto eu tenho sorte de ser seu filho. Quero que você dê um abraço na Nina, que já está velhinha mas late e brinca pelos corredores feito filhote. Ah, e pode entregar meus carrinhos da minha coleção predileta para o Toni. Ele é pentelho, mas é meu melhor irmão. E quero que você peça para a vovó fazer aquele bolo de laranja com calda de açúcar para hoje à noite...

Fábia, chorando do outro lado do telefone, não entende por que tantas exigências.

- É claro filho, eu faço tudo isso, mas o que está acontecendo?

- Te amo mãe.

A linha caiu. O coração daquela mãe se apertou. Ela ainda não sabia, mas era a última vez que falara com João. Em meio ao assalto da Nove de Julho, o último pedido daquele garoto de 17 anos foi falar com sua mãe. E assim fez.

Nas mãos caídas machucadas no chão da avenida, um recado para quem o encontrasse:

“Faça primeiro o que o seu coração manda. Siga seu instinto, peça desculpas, abrace quem você ama. Era isso que eu queria ter feito antes de sair de casa”.

(...)

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