quarta-feira, 9 de maio de 2012

Impasse


Ele saia com a bola, todo desesperado atrás do gol. Em flashes, ia construindo o caminho para alcançar o sucesso. Era talentoso, charmoso e tinha uma formosura de cair o queixo. Não desgrudava da bola. Pelo campo, conquistava pouco a pouco seus adversários, que liberavam o caminho para ele passar. Apesar de saber que fazia bem o seu trabalho, tinha um exagero exacerbado pelo gol, que parecia cada vez mais longe apesar de estar na ponta de seu nariz. Cauteloso. Era assim que se movimentava, mas não deixava a ousadia para trás. Queria mais, sempre mais: o passe perfeito, a luta honesta, os movimentos feitos com maestria. 

Perfeccionista e rigorosamente exigente com sua capacidade. Sabia que podia mais e por isso conseguia se criticar em cada lance. O jogo sempre começava com a bola em seu pé e a mira na palma da mão, mas não bastava. Ele precisava de uma venda nos olhos para esconder o campo livre e encontrar impasses a cada passo. Coitado, tanto talento para a luta com um único concorrente: ele mesmo. Não é à toa que na hora de tomar a decisão certa, bem na boca do gol, ele pisava duas vezes no chão e dava tempo para o batalhão chegar e roubar sua grande jogada. Apesar da tabela de gols não ser nada humilde, também não era lá essas coisas. E isso também o incomodava: essa falta de capacidade de se deixar levar. O melhor do mundo já nasceu grande e por isso não conseguia enxergar seus potenciais.

Agora, no jogo da vida, ele corre atrás de defeitos para enxergar suas qualidades que estão ali, intrínsecas e prontas para mexer as redes e dar orgulho aos poemas e rimas que lhe aguardam para festejar.

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