sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ventania


Desajeitada. Era assim que ela me conquistava. Toda tarde eu a esperava na esquina, um pouco na espreita, mas nunca totalmente escondido. Era a chance dela me notar. Tudo era tão intenso quando ela se aproximava. Toda ela. Toda linda chegando na ponta dos pés com a fita cor de mel nos cabelos cor de ouro. Encantava-me a ponto de me arrepiar e eu, completamente envergonhado, me esconder por temer minha cara a esmo. Era irritante aquele sentimento. “Ela é só uma pessoa, uma garota como outras tantas milhões” pensava eu só pra tentar...me enganar. Mas era só eu ouvir seu coração mais perto do meu e tudo ficava de pernas pro ar. Às vezes meu egoísmo chegava a ponto de achar que até um furacão me faria menos mal que estar perto dela. Não me balançaria tanto. Não tanto como ela mexe comigo. Sutil. Intenso. E inesquecível.

E pensar que hoje já me chego aos 20 anos. Arrepiado, atormentado e desde os 15 nada mudou. Ainda continuo medroso, magrelo, sem cor. Escondido entre as linhas das esquinas para não ser notado nem pelo vento cortante de toda tarde de inverno. E desde quando eu sonhava que com 20 anos eu já teria carro e casa própria, sonho com ela. Todas as noites, principalmente as de primavera. É porque o cheiro do dia me lembra flores. E flores me lembram perfume. E perfume me lembra ela. Não só o perfume do corpo, mas do sorriso também. Dos olhos envergonhados e quentes, do nariz que empinava quando ela sorria, da boca macia que termina em suaves covinhas no começo da bochecha. Sem contar o corpo de bailarina. Que dançava um musical toda vez que ela hesitava andar.

Ela só não era generosa. Porque se fosse, ficava comigo desde meu último recado na escola. Desde quando comprei sorvete na padaria porque ela estava sedenta. Desde quando ridiculamente a convidei para dançar na formatura (e claro, ela negou com um beijo no rosto). Desde que me confessei com uma carta escrita debaixo da chuva. De exatas três folhas frente e verso. Não, eu não sou marica, só sensível. Só um completo apaixonado. Bem que minha avó disse “É meu filho, você vai aprender que a mais profunda dor vem de um amor não concebido”. E eu sinto isso cada dia mais. Uma dor masoquista que me leva à esquina que ela passa todo dia, como quem não quer nada. Nem dar uma segunda chance ao coração, pro amor florescer de novo em outra vizinhança.

Um comentário:

  1. Por que faz isso, Juliana?
    hahah
    Impressionante como suas palavras, de modo ou de outro, me fazem reviver coisas na memória e viver outras na imaginação que são tão próximas, tão... tão quase minhas.

    Absurdamente lindo. =)

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