segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Saudação ao sol


Acordou com aquela carinha que só faz ainda dormente. Em silêncio, fez bico de criança e levantou devagarzinho com os cabelos bagunçados. Alguns fios sobre os olhos doces de saudades, abriu lentamente só pra me deixar com frio na barriga. Eu só observava, louca, fascinada (adorava acordar antes só para ver seu ritual). Aí, levantou os braços e espreguiçou feito animalzinho sonolento. Não me aguentei e soltei um sorriso daqueles que só consigo em momentos assim. A camiseta mostrava os ombros um tanto amassados depois de uma noite de sono incrível, só não melhor que a minha quando sentia suas mãos alisando minha cintura e eu arrepiava só de imaginar seu rosto atrás de mim. Era muita sorte pra uma pessoa só e eu ali, abusando daquela fortuna completa. Era tão gostoso admirar alguém assim...era ela, a pessoa, que ganhava meu apreço, mas voltava todo para mim, quando caia por terra e percebia que não precisava de mais nada senão mais manhãs como aquela.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Apologia

Uma vez me disseram que apenas um sentimento permeava o mundo: o amor. E foi através de seus desdobramentos que muitos outros passaram a existir. Milhares bons. Outros nem tanto. Mas todos com uma raiz ali nele. No amor. Parei pra pensar neste dia “Mas como? Não é possível que a raiva, a inveja, venha do amor”. À primeira instância não levei muito a sério um papo furado como esse. Só sei que achei muito complicado esse delicado tricô de nós e linhas finas que tecem nossas emoções. Aí eu parei pra pensar no que eu realmente achava do amor. Comecei a procurar de boca em boca, perfil em perfil definições pelas quais eu me identificasse. Chorei com lindos manifestos tangibilizados em ações, e me decepcionei também com taxações alheias. Então descobri que o amor não era nada daquilo que eu estava procurando. Ele não era liberdade, não era relacionamento. Não era tesão, tampouco ressentimento. O amor não era inveja, nem glória. Não era história de 30 anos nem de 30 segundos. Não só isso. Ele é mais. Muito mais que qualquer tentativa de descrição. Ele é tão meloso que nos torna firme, tão concreto que nos desmaterializa a cada vez que um novo filtro de mundo nos surpreende. Um sorriso de canto. Uma lágrima de dor. Um desentendimento por ciúme qualquer, dos mais aleatórios que sejam. O amor, quando existe (sempre!), é um eterno renascimento. Um camaleão na flor da idade, viril e perene. Um sentimento tão bonito que fecha a garganta permitindo que o peito aguente mais ar que é capaz, sem doer. Um sentimento tão sincero que desperta a imaginação e os pensamentos mais ousados. Um origami sem fim, de infinitos desdobramentos.


Parei. Porque comecei a fazer o que tinha dito que o amor não era: descrições.
Então vai amor, voe! E seja assim, um admirável sopro de vida e intensidade que nos invade todos os dias com venturas que sempre terminam e começam em você.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Toda dela.

Ela tem um sorrisão que engole o mundo.
Ela faz serenata com o olhar.
Ela embala meus sonhos em vento e depois desenrola no mar.
Ela mexe meus quadris e dança. Me deixa boqui.aberta.
Ela suspira nos meus ouvidos e eu...deliro.
Ela fecha meus olhos e recheia meus sentidos (b)agu(n)çados.
Ela reaviva meu olfato e me enlouquece com seu perfume de matar.
Ela me arrepia, me fascina, me dá medo e depois coragem.
Ela é pura poesia.
Ela é uma anedota sem fim.
Ela...é infinita descrição e palavras repetidas. Encantadoras.

Ela é a vida.

Dia de Faxina

Hoje resolvi mudar tudo de lugar. Mexer no passado, passar remédio na ferida, colocar as plantas no sol. Decidi consertar alguns buracos na parede, jogar papel fora, ouvir música engavetada, vomitar pensamentos, varrer a casa toda. Hoje eu queria organizar o que, há muito, bagunçado estava. E fiquei feliz, sabe? Porque só assim eu percebi quanta coisa mudou. Quanto a vida se manifestou em um curto espaço de tempo. E como, principalmente, muito do que eu guardava com tanto carinho já não se encaixa em meu contexto atual. Como diz um amigo meu, os personagens a quem tantos nos apegávamos agora já não fazem mais sentido. Parece que, de alguma forma, a vida tomou seu rumo sem muito esforço. Tudo foi se encaixando como engarrafamento no final do dia. Que lota, congestiona, dá dor de cabeça, mas passa.

Tudo parece tranquilo. Diferente. Mas continua presente a saudade. Eu queria te escrever um dia. Uma carta bem grande, cheia de linhas e entrelinhas pra você saborear. Contar tudo o que pensei nesses tempos, tudo o que me deu vontade de fazer e criar enquanto sua falta consumia um lugar do meu corpo: meu peito. Mas aí lembrei que você não gosta muito de palavras. Aliás, todas as vezes que sonho contigo você continua como está: mudo. Não digo que me fez mal, pelo contrário. Olha só pra mim. Eu olho para trás e não me reconheço, parece que renasci das cinzas sem tua presença. Incrível como você me faz bem até de longe. Mas o mais impressionante é remexer em tudo e tudo, completamente cada detalhe ter algum ingrediente seu. Algum trejeito que ficou por baixo dos panos, algum sorriso que eu me esqueci de ignorar pra não doer. Ficou ali, adormecido, mas quente. Infelizmente, por mais deletável que tudo possa ser, sentimentos não tem essa programação. Não têm lixo eletrônico. Ficam ali, estocados, largados aos cantos, mas permanecem. E fazem questão de grudar nos pés sempre que passamos despercebidos pela sala.

Sei lá. Não quero mais falar com você e (quase) não me interesso mais pelo que anda fazendo. Às vezes até acho meio bobo, fútil, suas novas peripécias. Mas sinto um aperto que chega a ser raiva quando me recordo de algumas nuances suas. Porque só eu conhecia esses trejeitos tão bem. Eu e mais ninguém. Ouvir da boca dos outros suas qualidades é perturbador porque eu queria desmentir e falar que elas são ainda melhores. Especiais e únicas como você sempre vai ser. Mas tudo bem. Durante essa limpeza eu percebi que tem muito capítulo que fizemos juntos e que, se eu tiver sorte, pra sempre vai continuar no seu livro. No meu já está organizado por número e ordem alfabética e eu posso contá-las a qualquer instante, como se fosse a primeira vez. Agora está tudo em seu lugar, de certa forma. Sereno, em paz. E eu fico bem por saber que, mesmo com saudade, cresço com a falta que você me faz.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Carta de despedida


Hoje eu chamo de quebra de ciclos.

Sim, eu estou abrindo mão de tudo o que sempre quis. Com meus 100%.
Eu sempre quis fazer as pessoas rirem, ser apaixonante, perfeitinho erro. Eu sempre quis ser mãe de família com emprego fixo, ser reconhecida por alguma coisa, ser olhada por todos e ainda empinar o queixo. Eu sempre quis ser amada sem necessariamente amar. Eu sempre quis ser a melhor redatora, a melhor amiga, a melhor mulher, a melhor aluna. Eu sempre quis ser puxa saco. Eu sempre me cobrei demais.
Eu sempre quis ter a resposta na ponta da língua. Eu sempre quis saber tudo quando o melhor era saber nada. Eu acho até que sempre fui egoísta comigo mesma. No meio disso tudo, de tanto querer o que nada tinha, acabei não vendo o que eu estava sendo. Nem enxergando as possibilidades. No que eu acreditava. Nas minhas crenças. Nos valores que compunham minhas notas. E vivendo somente em devaneios eu esqueci de simplesmente ser. Mas nesse “bololô”, a vida fez questão de me acordar. Mostrando que em grande parte das situações eu era normal, que pessoas têm todo o direito de me apagar da vida delas, que talento se encontra todo dia e que um dia eu não vou mais ser novidade. Eu percebi que não precisava ser nada do que sempre quis. Só ser de verdade. Mas o que eu realmente sou? E por que me importo tanto em ser o que todo mundo procura? Eu só tenho 20 anos e já repeti ciclos na minha vida como quem repete figurinha. Na verdade, eu vivia repetindo isso todo santo dia.

CHEGA!

Eu não quero mais uma vida planejada nem ter a obrigação de arrancar o sorriso de alguém. Infelizmente eu vou decepcionar outrem qualquer hora, mas pra pensar no próximo eu preciso ser assim. Eu e só isso. Só me aceitar. Só aprender que nunca serei igual ao outro e simplesmente por isso não existe competição. Que a maioria das coisas que a gente escreve ou lê a gente já sabe, mas leva um tapa na cara quando se depara com a própria opinião na boca dos outros. Eu só cansei de viver calada, na miúda, seguindo o padrão. Talvez seja ruim e eu vá levar muito “não!” na cara, mas só testando pra saber se um dia ganho um tão sonhado “sim”. Eu quero conquistar tudo de novo mesmo que eu nunca tenha tido (ou sido) nada. E deixar tudo o que fiz lá atrás, escrito no livro. Há tantos outros capítulos esperando por mim, pra quê me prender agora (justo agora) a rabiscos jogados ao redor do lixo?

Estou em queda livre, sem paraquedas, mas nunca estive tão segura que ser eu mesma é a coisa mais certa que posso fazer.

“A mando do nada, ela largou todos os sonhos e foi ser feliz”.
(autor desconhecido)

segunda-feira, 4 de março de 2013

Confetes


Dentro do carro, os dois se olhavam pelo canto do perfil.
Cortavam-se adentro escondendo tamanhos desejos da carne.

-          Bom, acho que é isso. Obrigada mesmo pela carona.
Não sabe como me ajudou.
-          Quê isso, não tem de quê...

(...ambos se olharam. E sorriram...)

-          Ta, então tchau. A gente se fala, certo?
-          Claro...é, espera! Posso te dizer uma coisa?
-          Sim, fique à vontade.

(...silêncio...)

-          Ah, só queria falar que você é muito bonita. Muito mesmo.
E não digo só de beleza, o que já é obvio, mas por dentro. Seu coração...
É simplesmente o mais puro que já conheci. É lindo de verdade. Parabéns!

(...sorrisos...)

-          Poxa, que palavras lindas. Só posso dizer que tudo isso é recíproco em relação a você, se não mais. Você é maravilhoso, carinha. Espero de verdade que a vida possa abençoar muitas pessoas com esse seu sorriso todo gigante.

(...silêncio de novo...)

Os dois se olhavam e por mais que nada saísse da boca, se entendiam.
Então, ele colocou a mão em seu peito. Massageou seu ego, deixando-a corada.

-          Olha só! O seu coração está batendo tão vivo.

Calmamente, ela caminhou as mãos pelo corpo dele chegando à boca. Tocou nela com o mesmo cuidado de quem toca uma viola no fim de tarde.

-          O seu também.

Aproximaram-se vagarosamente. Encostaram a ponta do nariz. Entrelaçaram os dedos. Beijaram os lábios de suspense.

E nunca mais se olharam de perfil.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O arrebol de Marisol

Toda manhã, exatamente às seis e meia, Marisol esticava as pernas até sua plantação de corações. Ela regava, cuidava e até fazia um carinho quando terminava a poda, tudo na medida certa para não sufocar os frágeis coraçõezinhos. Tudo para eles não irem embora. O horário em que Marisol acordava era pontualmente quando o arrebol nascia junto ao sol. Com aquela cor avermelhada, o ar levemente morno e macio às narinas. Ela sempre fechava os olhos e, com uma respiração bem profunda, sorria. Dizia sempre que era um novo começo, um dia totalmente especial.

O chapéu, sempre na cabeça, protegia suas sardinhas do rosto deixando um ar de mistério sob o olhar na menina, que mal chegara à puberdade e já era linda como a lua. Na mão, um lenço branco acariciava o chão quando ela chegava e fazia a saudação ao sol. Nos pés, apenas sorte. Ela adorava sentir a terra entre os dedos massageando sua alma. Na mente, apenas a intenção de fazer o bem. Desde o dia em que Marisol decidiu cuidar dos corações como quem cuida de uma plantação de flores, eles nunca mais foram embora. Ela não esperava nada deles, nem mesmo uma despedida. Apenas sentia que devia estar ali todos os dias para doar todo o carinho do mundo. Sem esperar nada. E assim se satisfazia por completo. E cumpria sua missão a cada dia. E a cada novo coração que chegava e partia.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

(Vi)ela


“Seis passos largos para frente sem pestanejar dar um para trás” – dizia Samantha mentalmente toda vez que acordava.

Este era o mantra que a acompanhava desde que perdeu seu pai em um acidente de carro. Era a coragem em palavras que ela não podia perder para seguir em frente. E lembrar dele.

Seis passos era o número perfeito que dava de sua cama até a porta do quarto, o qual não permitia que ela voltasse a se enrolar no cobertor. Desde que perdeu seu pai, Samantha também perdeu a vontade de continuar. Ela só tinha vinte anos e há dois morava sozinha, com o tímido dinheiro da herança para pagar as despesas e terminar de estudar. Às vezes tocava uma viola pelos bares da cidade e conseguia uns trocados para comprar um Martini no final da noite. Sua mãe? Fora morar n’outro país, distante, e com certeza já tinha outra família.

Samantha era filha do mundo.

2 maços de cigarro. Só fumava essa quantidade quando escrevia até tarde. O padrão mesmo era um e meio,  ou meio quando estava apaixonada. Pela noite.

Noite, sua melhor amiga. Gostava de dormir quando o sol já batia entre os vãos da janela e acordava quando o entardecer acobertava seu corpo com imensidão. Mas só acordava mesmo depois de uma boa xícara de café preto e um cigarro. Ah, e claro, depois dos seis passos da coragem. Os passos que recordavam o pai, que sempre a acordava para o colégio com um tapinha no ombro e com um olhar...de amor.

Seus olhos eram dele também. Azuis cor do céu quando está de bom humor, profundos, intensos e levemente melancólicos. Samantha era realmente uma garota de tirar o chapéu. Mas ela não reconhecia.

Bento. O gatinho que ela considerava dela, mas que às vezes passava férias na rua. Ela sempre deixava leite na porta de casa por mais que não soubesse quem realmente tomava. Ele era seu melhor companheiro, porque sabia quando Samantha estava realmente triste e por isso, passava a noite toda com ela, roçando suas pernas em seu pelo macio como nuvem.

Estrofes. Ela nunca terminava uma porque achava que era seu charme entre um poema e outro. Achava mesmo que isso instigava a imaginação das pessoas a querer descobrir mais sobre o autor das palavras. Samantha se escondia nos blusões de moletom, mas na verdade morria de medo de alguém ver sua fragilidade em corpo de mulher. E por isso se sentia apagada. Às vezes esquecida, amargurada. E em cada segundo do dia, vazia, como um beco sem saída.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Desbota


Já era tarde da noite quando passos pisoteavam seu novo lar. O chão. Tão cinza, severo, duro demais para se passar por uma cama onde ainda fosse possível sonhar. Eles se sentiam completamente inúteis. E, por incrível que pareça, vazios em sua pior forma. Era de se acreditar que um dia este momento chegaria afinal tudo tem um fim. Mas não justo com eles, logo eles que em pleno contorno traziam aos olhos aprendizes um dos poucos presentes que na vida se tornam eternos: sabedoria.

Agora era tudo monótono. Sem sofá, sem estantes, sem cores que pudessem preencher algum coração perdido. Sem esperanças também. Eles se sentiam tão usados. Sujos como a cena de um crime por mais que sua vida inteira fosse trazer o justo em forma de lições. Não importava o quanto ainda fossem vistosos, o cheiro de mofo borrava seus sentidos e qualquer que fosse a mão que os tocasse soaria um tanto...falso. Era uma dor inatingível, inimaginável. Saber que em um dia foram tão aproveitados e usados como guarda-chuva e no outro ali, caídos na boca da sarjeta esperando um novo dono. E por aí, o ciclo se repete. A chuva cai, esgota a tinta que ainda marca a pele de histórias, mancha de sangue que escorre sem dó pelos rios da imaginação.

Quanta falta de compaixão!

E pensar que um dia eles foram uma das coisas mais adoráveis da vida de alguém, por ironia da vida, do destino ou qualquer palavra que caiba no significado do esquecimento, possa servir para denominar tanto desperdício. De sentimento.

Pois é. Aqueles livros foram encontrados nus, logo ao lado de um saco de lixo abarrotado de outros objetos sem valor algum. Abertos, largados, sofrendo por alguém que já não os queria mais e sequer teve o respeito de doá-los para uma pessoa mais forte. Mais humana. Naquele dia de puro sol eles morreram. Pra renascer em outra imensidão. E encontrar energia na mão de jovens curiosos que ainda tinham o mundo todo pra descobrir. Que ainda viam alma em tudo o que tocassem. É, aquele dia os livros descobriram que não importa quanto tempo passe, tudo se evapora com os dias e com a falta de cenas que repintem o afeto que fora criado em algum perfil.

Histórias, enquanto abstratas, continuarão a se manifestar eternas.