segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

(Vi)ela


“Seis passos largos para frente sem pestanejar dar um para trás” – dizia Samantha mentalmente toda vez que acordava.

Este era o mantra que a acompanhava desde que perdeu seu pai em um acidente de carro. Era a coragem em palavras que ela não podia perder para seguir em frente. E lembrar dele.

Seis passos era o número perfeito que dava de sua cama até a porta do quarto, o qual não permitia que ela voltasse a se enrolar no cobertor. Desde que perdeu seu pai, Samantha também perdeu a vontade de continuar. Ela só tinha vinte anos e há dois morava sozinha, com o tímido dinheiro da herança para pagar as despesas e terminar de estudar. Às vezes tocava uma viola pelos bares da cidade e conseguia uns trocados para comprar um Martini no final da noite. Sua mãe? Fora morar n’outro país, distante, e com certeza já tinha outra família.

Samantha era filha do mundo.

2 maços de cigarro. Só fumava essa quantidade quando escrevia até tarde. O padrão mesmo era um e meio,  ou meio quando estava apaixonada. Pela noite.

Noite, sua melhor amiga. Gostava de dormir quando o sol já batia entre os vãos da janela e acordava quando o entardecer acobertava seu corpo com imensidão. Mas só acordava mesmo depois de uma boa xícara de café preto e um cigarro. Ah, e claro, depois dos seis passos da coragem. Os passos que recordavam o pai, que sempre a acordava para o colégio com um tapinha no ombro e com um olhar...de amor.

Seus olhos eram dele também. Azuis cor do céu quando está de bom humor, profundos, intensos e levemente melancólicos. Samantha era realmente uma garota de tirar o chapéu. Mas ela não reconhecia.

Bento. O gatinho que ela considerava dela, mas que às vezes passava férias na rua. Ela sempre deixava leite na porta de casa por mais que não soubesse quem realmente tomava. Ele era seu melhor companheiro, porque sabia quando Samantha estava realmente triste e por isso, passava a noite toda com ela, roçando suas pernas em seu pelo macio como nuvem.

Estrofes. Ela nunca terminava uma porque achava que era seu charme entre um poema e outro. Achava mesmo que isso instigava a imaginação das pessoas a querer descobrir mais sobre o autor das palavras. Samantha se escondia nos blusões de moletom, mas na verdade morria de medo de alguém ver sua fragilidade em corpo de mulher. E por isso se sentia apagada. Às vezes esquecida, amargurada. E em cada segundo do dia, vazia, como um beco sem saída.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Desbota


Já era tarde da noite quando passos pisoteavam seu novo lar. O chão. Tão cinza, severo, duro demais para se passar por uma cama onde ainda fosse possível sonhar. Eles se sentiam completamente inúteis. E, por incrível que pareça, vazios em sua pior forma. Era de se acreditar que um dia este momento chegaria afinal tudo tem um fim. Mas não justo com eles, logo eles que em pleno contorno traziam aos olhos aprendizes um dos poucos presentes que na vida se tornam eternos: sabedoria.

Agora era tudo monótono. Sem sofá, sem estantes, sem cores que pudessem preencher algum coração perdido. Sem esperanças também. Eles se sentiam tão usados. Sujos como a cena de um crime por mais que sua vida inteira fosse trazer o justo em forma de lições. Não importava o quanto ainda fossem vistosos, o cheiro de mofo borrava seus sentidos e qualquer que fosse a mão que os tocasse soaria um tanto...falso. Era uma dor inatingível, inimaginável. Saber que em um dia foram tão aproveitados e usados como guarda-chuva e no outro ali, caídos na boca da sarjeta esperando um novo dono. E por aí, o ciclo se repete. A chuva cai, esgota a tinta que ainda marca a pele de histórias, mancha de sangue que escorre sem dó pelos rios da imaginação.

Quanta falta de compaixão!

E pensar que um dia eles foram uma das coisas mais adoráveis da vida de alguém, por ironia da vida, do destino ou qualquer palavra que caiba no significado do esquecimento, possa servir para denominar tanto desperdício. De sentimento.

Pois é. Aqueles livros foram encontrados nus, logo ao lado de um saco de lixo abarrotado de outros objetos sem valor algum. Abertos, largados, sofrendo por alguém que já não os queria mais e sequer teve o respeito de doá-los para uma pessoa mais forte. Mais humana. Naquele dia de puro sol eles morreram. Pra renascer em outra imensidão. E encontrar energia na mão de jovens curiosos que ainda tinham o mundo todo pra descobrir. Que ainda viam alma em tudo o que tocassem. É, aquele dia os livros descobriram que não importa quanto tempo passe, tudo se evapora com os dias e com a falta de cenas que repintem o afeto que fora criado em algum perfil.

Histórias, enquanto abstratas, continuarão a se manifestar eternas.