domingo, 6 de janeiro de 2013

Desbota


Já era tarde da noite quando passos pisoteavam seu novo lar. O chão. Tão cinza, severo, duro demais para se passar por uma cama onde ainda fosse possível sonhar. Eles se sentiam completamente inúteis. E, por incrível que pareça, vazios em sua pior forma. Era de se acreditar que um dia este momento chegaria afinal tudo tem um fim. Mas não justo com eles, logo eles que em pleno contorno traziam aos olhos aprendizes um dos poucos presentes que na vida se tornam eternos: sabedoria.

Agora era tudo monótono. Sem sofá, sem estantes, sem cores que pudessem preencher algum coração perdido. Sem esperanças também. Eles se sentiam tão usados. Sujos como a cena de um crime por mais que sua vida inteira fosse trazer o justo em forma de lições. Não importava o quanto ainda fossem vistosos, o cheiro de mofo borrava seus sentidos e qualquer que fosse a mão que os tocasse soaria um tanto...falso. Era uma dor inatingível, inimaginável. Saber que em um dia foram tão aproveitados e usados como guarda-chuva e no outro ali, caídos na boca da sarjeta esperando um novo dono. E por aí, o ciclo se repete. A chuva cai, esgota a tinta que ainda marca a pele de histórias, mancha de sangue que escorre sem dó pelos rios da imaginação.

Quanta falta de compaixão!

E pensar que um dia eles foram uma das coisas mais adoráveis da vida de alguém, por ironia da vida, do destino ou qualquer palavra que caiba no significado do esquecimento, possa servir para denominar tanto desperdício. De sentimento.

Pois é. Aqueles livros foram encontrados nus, logo ao lado de um saco de lixo abarrotado de outros objetos sem valor algum. Abertos, largados, sofrendo por alguém que já não os queria mais e sequer teve o respeito de doá-los para uma pessoa mais forte. Mais humana. Naquele dia de puro sol eles morreram. Pra renascer em outra imensidão. E encontrar energia na mão de jovens curiosos que ainda tinham o mundo todo pra descobrir. Que ainda viam alma em tudo o que tocassem. É, aquele dia os livros descobriram que não importa quanto tempo passe, tudo se evapora com os dias e com a falta de cenas que repintem o afeto que fora criado em algum perfil.

Histórias, enquanto abstratas, continuarão a se manifestar eternas.

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