segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Despertador

Acordei um dia reclamando que tinha dormido mal. Aí, reclamei que estava atrasada. Reclamei que não tinha tempo para tomar café direito, nem me arrumar, quão menos ajeitar o cabelo. O calor no metrô estava insuportável. Reclamei. Aí, tinha aquela caminhada de 10 minutos até o trabalho com o sol na cachola que não perdoava. Cheguei reclamando e toda suada. Reclamei dos vários e-mails na caixa de entrada, da falta de tempo para ler notícias e da falta de mensagens alheias no whatsapp (só para - talvez - me sentir importante). Reclamei que estava sem tempo para cuidar da minha vida, que estava entediada com o meu trabalho e eu estava em crise de identidade. Cheguei em casa reclamando de fome, reclamei da bagunça da minha irmã no meu quarto, do meu irmão me irritando porque só queria chamar minha atenção, da minha mãe cobrando a louça limpa de manhã. Reclamei o dia todo que não saia da frente do computador, mas cheguei em casa e a primeira coisa que fiz foi ligar ele. Antes de comer. Antes de dar "boa noite" para minha família. Antes de sequer saber se eu queria mesmo perder mais trinta minutos no Facebook. Reclamei, mas não fiz nada. Não me dei "bom dia" de manhã, nem tentei acordar mais cedo. Não fui com uma blusa mais fresca mesmo sabendo que o dia seria ensolarado. Não organizei minha caixa de e-mails no dia anterior porque sempre deixo para amanhã. Não quis sequer atualizar meu currículo ou procurar novas áreas porque estava com preguiça. Não levei lanche para o trabalho e por isso cheguei em casa querendo devorar até a mesa da sala.

Reclamei, mas não fiz nada.

E assim os dias foram passando, a vida foi continuando a mesma coisa até o dia que eu me toquei que eu estava esperando alguém chegar, bater nas minhas costas e me dar a solução de mão beijada para uma vida plena e satisfeita. Pensando bem, a gente não faz (ia) muito para mudar. Mudar é para os corajosos e talvez até um caminho mais solitário. É para quem tem força de vontade e não é fácil. Requer muita disciplina, muito interesse, muita garra em começar algo novo e abrir mão de tanto apego. Digo por mim mesma, olhando minha rotina e vendo o quanto é feio fazer birra por coisas que eu mesma escolhi. Fiquei mal acostumada com tanta mordomia e agora me pego no escuro sendo forçada a acreditar que o próximo passo vai me levar a um caminho novo. Eu só sei de uma coisa: não dá mais para reclamar e não fazer nada. A grande verdade é que tudo só fica bem quando a gente aqui dentro fica bem também.

Eu preciso tentar algo novo nem que ele conclua no mesmo lugar (que nunca é o mesmo). No fundo, não são os outros que mudam ou as situações que se transformam, mas nosso universo, nosso próprio espaço-tempo que gira para trazer sempre alguém melhor. Só depende de (você, eu, ele, todos) nós.